Ato contra a violência institucional contra as vítimas de violências sexuais e de gênero.
“A violência vem acompanhando a humanidade ao longo de sua
história. Atualmente, violência, em seu sentido mais usual, significa empregar
a força física, intimidar, subjugar, constranger, obrigar alguém a fazer algo
que não está com vontade, impedir alguém de manifestar seu desejo e vontade,
cercear a liberdade, coagir, violar os direitos das pessoas, ofender a
integridade física, sexual e psicológica.” (Janize Luzia Biella)
“Sou ave de rapina/ Sou
mulher e sou menina/ Sou a puta da esquina/ Sou vício de maconha e cocaína. //
Já fui um medo que quase me assassina/ Mas não sou o que você acha/ Nem o que
me ensina” (Eu não quero mamar, Réca Polleti)
“Digo
que não sou o Alpha nem o Ómega, nem qualquer coisa de intermédio. Sou a
vocação de minha própria vontade. Sou a minha própria trindade. A sempre
possibilidade. Digo que sou uma valência do futuro e o meu corpo aberto há-de
ser um dia.” (Ana B. Pereira)
Seja durante o dia ou durante a noite, não importa a roupa
que escolhemos utilizar, encarar as ruas e avenidas das cidades ainda nos é
hostil. Até quando nos sentiremos vulneráveis ao andar pelas ruas sozinhas? Até
quando precisaremos perguntar aos noss@s amig@s, irmãos e companheir@s se eles
podem nos acompanhar até o ponto de ônibus? Até quando precisaremos de
policiais para tomar conta das nossas vidas e das vidas d@s outr@s a fim de não
sermos violentadas, seja dentro de casa, nos campos ou cidades? E, se optarmos
por pedir ajuda à polícia, até quando seremos agredidas dentro das delegacias?
Aliás, até quando teremos a própria policia como agressora?
Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), as
denúncias de estupro aumentaram em 25% no Rio de Janeiro em 2010, somando mais
de 4.500 casos ao longo do ano, 12 estupros por dia. Isso sem falar naqueles
que nem são denunciados! Se por um lado isto reflete que mais mulheres passaram
a reconhecer situações de violência, sem se sentirem envergonhadas ou
responsáveis por isto, por outro percebemos que ainda estamos longe da
sociedade que almejamos, na qual seremos tratadas com respeito a nossa
autodeterminação e a nossa integridade física. Estamos cansadas de nos
esforçarmos para evitar o estupro; está na hora de os homens aprenderem a não
estuprar!
Quando chegamos às delegacias para fazer o registro de algum
tipo de violência, ao invés de termos um atendimento digno independente de
nossa situação econômica, cor, orientação sexual, profissão ou idade, diversas
vezes somos discriminadas ou culpabilizadas pela própria violência que sofremos.
Por vezes aqueles que nos atendem chegam a dizer que fomos violentadas porque
estávamos usando uma roupa curta ou que “fomos assediadas porque somos
bonitas”: a violência não pode ser tratada como um elogio à beleza ou como
motivo de piadas, pois ela nos machuca diariamente, corroendo e destroçando
nossos corpos e mentes. Assim, diversas vezes saímos das delegacias ainda mais
fragilizadas, após termos ouvido que somos nós as culpadas!
E como se não bastasse, por diversas vezes ainda são os
policiais os culpados pelas nossas agressões e estupros! Notícias que relatam
histórias de violência policial a prostitutas, casais homossexuais ou a
mulheres em situação de vulnerabilidade sempre nos chocam, mas não são casos
isolados, não estão desassociados da forma como somos tratad@s diariamente pela
polícia. E é por isso que estamos aqui, para denunciar a forma como somos
tratadas nas delegacias! Para denunciar as cantadas que temos de ouvir de
policiais nas ruas! Para denunciar as agressões que homossexuais e travestis
sofrem da própria polícia! Para denunciar toda a violência institucional que
sofremos!
Não temos direito às ruas! Se não podemos transitar
livremente sem nos sentirmos ameaçadas, isto não é apenas uma violação ao
direito de ir e vir, mas também do direito à cidade e tudo que ele inclui, como
o direito ao trabalho, à escola e ao lazer. Quem precisa sair de casa de
madrugada para estudar ou trabalhar, sofre constantemente com o perigo de ser
violentada. Quantas companheiras já tiveram que deixar seus empregos porque
passaram por situações traumáticas de violência?!
Nos dizem que somos livres, mas é mentira, ninguém é livre
quando vive com medo. E para nós não existem lugares seguros. Além da violência
das ruas, da violência das instituições, ainda temos a violência dos nossos
companheiros e companheiras, dos nossos pais e parentes próximos. Para nós, a
violência começa dentro de casa, quando as pessoas em quem deveríamos confiar
nos violentam, nos mantendo em silêncio e nos obrigando a fazer tarefas
domésticas ou mesmo quando nos dizem desde crianças: “não volte tarde, se
alguém mexer com você, corra e grite”. Mas nem sempre podemos correr ou gritar
e não é nossa culpa. Se somos entendidas como seres passivos, à espera de uma
violação, como poderemos nos proteger e nos construir como pessoas autônomas se
não partindo de um entendimento do nosso próprio poder? Fomos desapropriadas de
nós mesmas e vamos fazer isso parar!
Não aceitamos mais que nos culpem pela violência que
sofremos! Nenhuma mulher, nenhuma trans, nenhum gay merece apanhar! Nenhuma
mulher foi estuprada porque estava bêbada ou por causa da roupa que usava! Ninguém
merece ter menos direitos porque é prostituta! Nenhum gay precisa tomar jeito e
virar homem! Nenhuma lésbica precisa ser estuprada, corrigida! Nenhuma trans
precisa tomar vergonha na cara! Não estamos errad@s!
Não vamos mudar! A forma como nos veem e nos tratam é que deve mudar! E estamos
aqui para fazer com que mude!
Viemos avisar que não aceitamos uma sociedade onde os
serviços públicos só existem para alguns, onde ser bem atendida, não ser
discriminada, inclusive pela polícia, é um privilégio! Viemos dizer que somos
todas vadias, somos todos viados, somos todas negras e todos negros, somos
todas travestis, e exigimos uma sociedade que nos aceite!
Marcha das Vadias - Rio de Janeiro